SEGUNDA-FEIRA, 25 DE NOVEMBRO DE 2013
ROMPA O SILÊNCIO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Hoje é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher.
Uma das melhores palestras que já vi no TED foi esta, da escritora americana Leslie Morgan Steiner, autora do livro Crazy Love (Amor Louco, que ela chama de "armadilha psicológica disfarçada de amor"), e sobrevivente de violência doméstica.
Uma das melhores palestras que já vi no TED foi esta, da escritora americana Leslie Morgan Steiner, autora do livro Crazy Love (Amor Louco, que ela chama de "armadilha psicológica disfarçada de amor"), e sobrevivente de violência doméstica.
Por favor, tire 16 minutinhos do seu tempo para assistir a esta palestra, agora com legendas em português. Durante esses 16 minutos, quarenta mulheres serão espancadas no Brasil. Sim, essa é a nossa estatística: a cada 2 minutos, 5 brasileiras são agredidas.
Basicamente, Leslie expõe três temas muito importantes: os estágios da violência doméstica, as respostas à velha pergunta "Por que uma mulher fica com um homem que bate nela?", e a desmistificação de que ela, Leslie, por ser branca e rica, não poderia ser vítima de violência.
No Brasil, a maior parte das mulheres que sofrem violência doméstica são negras (aliás, 61% das vítimasde feminicídio são negras). Mas isso não quer dizer nem de longe que só negras, ou só pobres, apanhem. É um erro gigantesco pensar que a violência doméstica está restrita a uma só classe social (ou mesmo a um só gênero, embora 85% dos agressores nos EUA sejam homens).
Ainda que a raça e situação financeira de Leslie não fizessem dela "uma vítima típica", a idade fazia: ela tinha 22 anos quando conheceu Connor, seu futuro marido. Nos EUA, mulheres entre 16 e 24 anos têm três vezes mais chances de serem vítimas de violência doméstica que mulheres de outras idades. Mais de 500 americanas nessa faixa etária são mortas todos os anos pelos maridos e agressores.
Outra coisa que fazia de Leslie uma vítima típica é o quanto ela desconhecia sobre violência doméstica. Ela não conhecia seussinais de alerta, nem seus padrões. Não sabia nada.
O primeiro estágio na violência doméstica, diz Leslie, é criar a ilusão de que a futura vítima domina a relação. Connor a idolatrava, confiava no seu sucesso, queria saber tudo sobre seus sonhos e seu passado. Ninguém nunca a havia amado tanto. Ele criou uma atmosfera de confiança confidenciando a Leslie que ele havia apanhado sistematicamente do seu padrasto desde que tinha quatro anos.
Leslie nunca poderia imaginar que aquele homem tão engraçado, carinhoso e inteligente seria capaz de, mais pra frente, querer controlar se ela trabalharia, como ela se vestiria, se ela usaria ou não maquiagem, os amigos que ela teria. "Eu não sabia que o primeiro estágio em qualquer relação de violência doméstica é seduzir e encantar a vítima", revela Leslie.
O segundo estágio é isolar a vítima. É óbvio que Connor, na época, não chegou de repente e revelou que a próxima fase do relacionamento seria que ela apanhasse. Não. Ele anunciou que havia largado seu emprego dos sonhos e que queria se mudar com ela para uma cidadezinha, longe daquilo tudo. Ela aceitou, apesar de não querer abandonar seu emprego, que também era ótimo. Mas ela pensava que, na vida, devemos fazer sacrifícios. Ela não tinha a menor ideia que, ao aceitar aquilo, estava entrando de cabeça numa armadilha cuidadosamente armada -- uma armadilha psicológica, física e financeira.
O próximo estágio da violência doméstica, narra Leslie, é apresentar aameaça da violência, para ver como a vítima reage. Assim que chegaram à nova cidade, Connor comprou três armas de fogo: uma, ele mantinha no porta-luvas do carro; outra, embaixo do travesseiro, na cama; e a terceira, no bolso dele, o tempo todo. Embora ele dissesse que precisava delas para se sentir protegido, aquelas armas eram um recado para Leslie. Sua vida já corria perigo.
A primeira vez que Connor a atacou fisicamente foi menos de uma semana antes do casamento. Era de manhã, ela ainda estava de camisola, trabalhando no seu computador, frustrada porque não conseguia terminar um artigo. Connor pôs as duas mãos no pescoço dela, o apertou até que ela não pudesse respirar, e bateu sua cabeça várias vezes contra a parede. Cinco dias depois, as dez marcas no seu pescoço tinham desaparecido, e ela pôs o vestido de casamento e se casou. Por quê? Porque ela tinha certeza que seriam felizes para sempre, que ele estava arrependido, e que aquilo jamais iria acontecer de novo.
Aconteceu mais duas vezes na lua de mel, enquanto estavam dirigindo. E ele bateu nela uma ou duas vezes por semana pelos dois anos e meio seguintes do casamento.
Outra coisa que Leslie não sabia é que não era a única -- uma em cada três mulheres americanas sofrem violência ou stalking(perseguições) em algum momento da vida. 15 milhões de crianças são agredidas todos os anos nos EUA. Muitas dessas crianças, ao crescerem, perpetuarão a violência em suas próprias famílias. Definitivamente, Leslie não estava sozinha.
Mas por que, então, ela ficou? (essa pergunta é muitas vezes um código para se culpar a vítima). Porque ela não se via como uma mulher agredida. Ela se via como uma mulher forte e apaixonada por um homem muito perturbado. Ela acreditava que era a única pessoa no mundo que poderia ajudá-lo.
Outra pergunta que as pessoas sempre fazem a Leslie é: por que você simplesmente não foi embora? Segundo ela, esta é a pergunta mais dolorosa, porque as vítimas sabem de uma coisa que as outras pessoas não sabem: que é extremamente perigoso deixar um agressor. O estágio final na espiral da violência doméstica ématar a vítima. Mais de 70% dos assassinatos de violência doméstica acontecem depois que a vítima termina a relação, porque aí o agressor já não tem mais nada a perder. (No Brasil, uma mulher morre vítima de violência masculina a cada uma hora e meia).
Outras consequências trágicas de deixar o agressor é a perseguição por muito tempo, mesmo depois do agressor se casar novamente; a recusa do ex em fornecer recursos financeiros para a mulher e/ou as crianças, e visitas não supervisionadas aos filhos, que se aterrorizam por ter que encontrar o pai que espancava a mãe deles.
Leslie finalmente conseguiu ir embora após uma surra sádica em que ela notou que, se continuasse com Connor, o homem que ela amava tanto a mataria. Ela então rompeu o silêncio, econtou a todos, incluindo a polícia, os vizinhos, amigos, família, estranhos -- e ela só está aqui hoje pra contar a história porquetodos a ajudaram.
Há ainda uma outra razão que transformou Leslie numa sobrevivente típica de violência doméstica: ela foi capaz de reconstruir sua vida, casou-se novamente, tem um relacionamento feliz e sem nenhuma violência. E essa, segundo ela, é a experiência da maior parte das sobreviventes. "O que nunca mais terei de novo", afirma ela, "É uma arma na minha cabeça apontada por alguém que diz que me ama".
O que ela pede, e eu também, é que se fale sobre a violência. "A agressão só tem sucesso onde há silêncio", diz ela. Eu recebo vários emails de mulheres que estão em situação de violência doméstica, e também de amigxs e familiares de vítimas, que não sabem o que fazer. Mais ainda, como tenho um leitorado jovem, recebo mensagens assustadas de adolescentes preocupadxs com o novo namorado da amiga, que parece possessivo e ciumento demais, e que está começando a isolá-la.
Falem com elas, mostrem-lhes a palestra, ou este texto, ou os dois, e tantos outros. Façamos como Leslie: vamos romper o silêncio em torno da violência doméstica. Pra podermos combater uma praga, precisamos saber que ela existe.
Falem com elas, mostrem-lhes a palestra, ou este texto, ou os dois, e tantos outros. Façamos como Leslie: vamos romper o silêncio em torno da violência doméstica. Pra podermos combater uma praga, precisamos saber que ela existe.















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